segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poética - Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Epicurismo - André Benatte

Sinta muito pouco
Apaixone-se muito pouco
Tudo sempre quase nada
Modere raiva ou alegria
Sensação nenhuma em demasia,
Viva sempre quase nada.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SER POETA - Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Guerra mundial - André Benatte

Pequenos traços
de esquecida memória
que descompõem a história:
os guardei em pedaços.

Todos eles escondidos
numa trincheira da guerra,
Alguns deles perdidos
na infértil e isolada terra.

Memórias fracas e tortas,
fracas e magras,
todas magras e mortas...

... e que holocausto as suas palavras!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Soneto da separação - Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Cacos - André Benatte

Difícil estar vulnerável
Esquecer o que se passou,
Reunir alguns pedaços
Cicatrizar o que restou.

A verdade mais dura
É o erro mais comum,
O que evita o apaixonado:
Não cometer erro nenhum.

Que maestria lhe compete
Tu, que simulas sentimento,
Muito entendes de viver
Mas sem amor: estás morrendo.